Quatro projetos da Rede de Embaixadores estão a fazer a diferença nos serviços públicos.

E se a recuperação de quem está em tratamento de uma dependência passasse por conhecer os seus direitos? Ou se uma unidade de saúde tivesse o nome em Língua Gestual Portuguesa e um guia do utente em Braille? E se a cibersegurança também se debatesse à luz da ética? E se uma biblioteca fosse um espaço de inclusão para a comunidade?
Parecem pequenos gestos, mas têm um peso decisivo para quem precisa deles, e já são uma realidade. Resultam de projetos desenvolvidos no âmbito da Rede de Embaixadores em Direitos Humanos na Administração Pública (EDHAP), constituída por formandos que concluíram com aproveitamento o Programa de Capacitação em Direitos Humanos para a Administração Pública, promovido pelo INA, I. P..
Estes projetos mostram como os direitos humanos se podem traduzir em mudanças concretas nos serviços públicos.
Menos estigma, mais dignidade na recuperação
Quem recupera de uma dependência não perde os seus direitos. É esta a aposta do projeto “Direitos Humanos em CAD”, promovido pela Comunidade Terapêutica Arco-Íris, unidade especializada do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, I.P. (ICAD), e dirigido às pessoas em tratamento e aos profissionais da área dos comportamentos aditivos e das dependências (CAD).
Este projeto visa combater o estigma associado às dependências e apoiar processos de recuperação mais dignos, participativos e orientados para a reintegração social. Pretende ainda reforçar a autoestima, a autonomia e as competências pessoais, sociais e cívicas de quem está em tratamento.
Através de sessões de formação, reflexão e análise de casos práticos, já se debateram temas como a discriminação no acesso aos cuidados de saúde, o estigma e a confidencialidade. Com o impulso da Embaixadora Tatiana Henriques, o projeto continuará a promover uma intervenção mais humanizada, a reintegração social e a construção de projetos de vida.
Cuidados de saúde sem barreiras na comunicação
Os cuidados de saúde só chegam a todos quando todos conseguem entendê-los. Na Unidade de Saúde Familiar (USF) Soberana, da Unidade Local de Saúde do Algarve, o projeto “Mãos que Falam” tornou o atendimento acessível a pessoas surdas e a pessoas com deficiência visual.
O caminho começou pela formação: os profissionais da USF frequentaram a ação “Comunicação com a Pessoa Surda” e adquiriram noções básicas de Língua Gestual Portuguesa. Uma parceria com uma família da Comunidade Surda permitiu ainda atribuir um nome gestual oficial à USF e nomes gestuais a vários profissionais. Esta colaboração vai prosseguir, com novas iniciativas de sensibilização e de promoção de uma comunicação mais inclusiva. O projeto contemplou ainda a criação do Guia do Utente em Braille, facilitando o acesso autónomo das pessoas com deficiência visual à informação sobre o funcionamento desta USF.
Com o envolvimento da Embaixadora Sandra Gomes, estão em preparação ações de aproximação às comunidades surda e cega, formação de base em Língua Gestual Portuguesa e a aprovação de procedimentos de qualidade para o atendimento destes utentes, permitindo uniformizar práticas assistenciais. Prevê-se ainda a criação de um kit de brinquedos inclusivos para as crianças que recorrem à Unidade.
Quando a tecnologia se cruza com a ética
Os direitos humanos também têm lugar no mundo digital. Promovido pelo Departamento de Ética, Auditoria e Conformidade do Gabinete Nacional de Segurança (GNS), o projeto “Zonas Cinzentas: Reflexões sobre Ética, Direitos Humanos e Cibersegurança” olha para estes temas à luz dos direitos fundamentais e aproxima a comunidade do GNS, o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) e o público em geral destas questões.
Entre as iniciativas concretizadas, destaca-se o workshop interno “Igualdade de Género”, promovido pelo Sargento-Mor Helder Santos, que abordou conceitos associados ao género, estereótipos, discriminação e diferentes formas de violência, e debateu o impacto das desigualdades na cultura organizacional e na sociedade. No evento C-Days, Patrícia Jerónimo apresentou uma reflexão jurídica sobre “Direitos Fundamentais e Cibersegurança”, centrada na Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital.
Com o contributo da Embaixadora Raquel Poucochinho, o projeto tem sensibilizado trabalhadores e público para os direitos humanos e promovido a discussão sobre os desafios éticos, sociais e tecnológicos da transformação digital e da cibersegurança.
Uma biblioteca de portas abertas à comunidade
Numa biblioteca, cabe muito mais do que livros. Foi este o mote do projeto “A Biblioteca Municipal de Murça: Um espaço público de conhecimento, inclusão e cidadania para a concretização dos Direitos Humanos”, que reforça o papel da biblioteca como serviço público de proximidade e espaço de promoção da inclusão, da participação cívica e da igualdade de oportunidades.
Num território com desafios demográficos, sociais e digitais, o projeto aproxima a comunidade dos direitos humanos e promove o acesso à informação, a literacia e uma participação mais ativa e informada. Entre as iniciativas já realizadas contam-se o Festival Literário “Porca-Lápis”, o projeto “Histórias que Unem”, desenvolvido com a Associação A2000, a apresentação de “Abecedário do Mar: Ondas, sons e colo”, o workshop sobre “A Carolina tem um nó na barriga” e o ciclo de sensibilização sobre Autismo e Inclusão. Através da leitura, da música e da expressão dramática, estas ações promovem a inclusão, a diversidade, a educação emocional e o bem-estar.
Dinamizado pelo Embaixador Manuel Monteiro, com o apoio do Município de Murça, o projeto vai continuar a afirmar a biblioteca como um espaço aberto, onde o conhecimento e a cultura ajudam a concretizar os direitos humanos.
Do apoio a quem está em tratamento à inclusão numa biblioteca de proximidade, passando pelo atendimento acessível e pelo debate sobre o mundo digital, estas experiências têm algo em comum: nascem de trabalhadores da Administração Pública que conhecem os serviços por dentro e transformam os direitos humanos em prática. O INA continuará a promover a partilha destas experiências, valorizando o papel dos Embaixadores e das práticas desenvolvidas.
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Última atualização: 12 de outubro, 2026